ISOLAMENTO DE LULA É DESUMANO - Dilma Rousseff
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ISOLAMENTO DE LULA É DESUMANO

Presidente eleita denuncia que solitária é uma forma de tortura e afirma que só o ex-presidente tem condições de pacificar o Brasil

Equipe Dilma
19/04/2018 3:26

Em palestra feita na Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia, a presidenta eleita Dilma Rousseff pediu apoio à luta pela libertação do ex-presidente Lula. Disse que ninguém além de Lula tem condições de levar o Brasil a se reencontrar:

— Lula é o maior líder político brasileiro, é o homem que reduziu a desigualdade no Brasil. O presidente Lula encarna este processo de redução das desigualdades. Ele representa o antigolpe. Ele traduz a possibilidade de o Brasil se encontrar consigo mesmo. Um país como o Brasil não pode viver esta intolerância, esta absurda divisão e este ódio. Lula tem condições de, a partir de uma eleição livre, ganhando ou não, ajudar o Brasil a se reencontrar. Ganhando, construirá pontes; perdendo, respeitará o resultado, jamais adotará uma atitude golpista, tentando mudar o resultado do jogo depois do placar ser anunciado, que foi o que fizeram comigo.

Dilma denunciou que Lula está sendo submetido a “condições desumanas” na prisão:

— Colocaram o Lula numa solitária. Lula é um homem forte, mas ele está sendo submetido a condições desumanas de prisão. Eu tenho experiência de três anos de prisão durante a ditadura militar, e posso dizer que, passada a fase de interrogatório, quando sofríamos torturas brutais, éramos levados para o presídio, e o máximo sofrimento a que nos submetiam era a solitária. É a pior punição, quando não há tortura física. Quem exerce a violência e usa a solitária como forma de tortura faz isto porque sabe que as pessoas precisam umas das outras. A gente precisa olhar uma face humana, a gente precisa conversar, a gente precisa tocar em alguém, a gente precisa do outro. Nós não somos só indivíduos e se fizeram de nós apenas indivíduos, nós seremos infelizes. Esta situação é o absoluto mal estar de civilização. Pois eles colocaram o Lula numa solitária. Lula é um homem forte, mas ele está sendo submetido a condições desumanas de prisão.

 

LEIA ABAIXO OS PRINCIPAIS TRECHOS DO PRONUNCIAMENTO DE DILMA:

 

Há dois anos, no dia 17 de abril de 2016, teve lugar no Brasil o início do golpe parlamentar, judiciario e midiático, com participação de setores da elite. Este golpe introduziu no Palácio do Planalto uma verdadeira quadrilha. Àquela altura, todos sabiam quem eles eram. Ninguém pode alegar que desconhecia qual seria o resultado. Eu lamento profundamente.

Eu sofri sob um golpe militar, fui presa, torturada, vi alguns companheiros meus serem assassinados e sei o valor da democracia porque vivi numa ditadura. Sei o valor de uma democracia porque conheci o enorme custo humano, social e político de não tê-la.

Nós herdamos séculos e séculos de exclusão. Os poucos governos que tentaram inverter isso não acabaram. O primeiro, Getúlio Vargas, foi levado ao suicídio. Com o suicídio, evitou por 10 anos a chegada da ditadura militar. O  segundo, João Goulart, seguia a mesma linha de Vargas, e foi apeado do poder. A intenção do golpe atual era destruir a mim, ao meu partido e ao presidente Lula. O golpe veio para retirar a possibilidade de que nós voltássemos ao governo.

Infelizmente para os golpistas, e felizmente para nós, o processo político de perda de representação por parte do centro conservador e de surgimento da extrema-direita resultou, no campo progressista, no ressurgimento muito forte do ex-presidente Lula. Tanto quando se analisa as intenções de voto, quando se examina a queda de sua rejeição. Lula tem hoje a menor rejeição entre todos os políticos. Em qualquer cenário pesquisado, Lula tem o dobro dos votos do segundo e do terceiro colocados somados.

O Lula é acusado de ter ganhado um apartamento em troca de benefício à empresa que o teria, com isso, corrompido. Não há registro algum em algum cartório de que ele seja dono ou de que alguém seja dono, dissimuladamente, em nome dele. Além disso, ele nunca morou um dia sequer no apartamento, o que poderia ter caracterizado uma posse. Descobriu-se, mais tarde, que a empresa que teria doado o apartamento para Lula usou o imóvel, depois disso, como garantia para obter um empréstimo bancário e que, não tendo pagado o empréstimo, foi punida com a penhora e uma sentença mandando leiloar o imóvel. Como um banco aceitaria em garantia um apartamento que não pertenceria ao tomador de crédito? E como poderia ser penhorado da empresa um apartamento que pertenceria a terceiros, no caso, Lula? Além disso, não há nenhuma prova de contrapartida de Lula pelo suposto recebimento do presente da tal empresa. Nenhuma lei, nenhum decreto, nenhum ato administrativo beneficiando o suposto corruptor. Confrontado pela defesa, o juiz que condenou Lula disse que o ato de ofício beneficiando o suposto corruptor era “indeterminado”.

Tem mais. A justiça e a imprensa disseram que o apartamento era luxuoso, tinha uma cozinha cuja reforma custou mais de R$ 1 milhão. O movimento social que representa os sem-teto, há poucos dias, invadiu o apartamento, ocupou o imóvel, e disse: se for do Lula, é nosso e nós ficaremos aqui; se não for do Lula, vão nos tirar. E eles foram retirados pela polícia. Mas antes de sair, os invasores filmaram e fotografaram o apartamento e fica muito claro que houve uma grande armação sobre o luxo do imóvel. É um apartamento simples, daquilo que chamamos de ‘classe média-média’. É claro que podia ser até uma palhoça, e se provassem que a palhoça havia sido resultado de corrupção, haveria corrupção. Mas não há prova alguma disso.

Lula foi, então, condenado por um apartamento que não possui e por um ato de ofício que não cometeu. Isto significa que estão praticando contra ele a ‘justiça do inimigo’. É quando se usa a lei e os processos legais para destruir civilmente uma pessoa. Eles acharam que só destruindo a imagem de Lula conseguiriam impedir que ele mantivesse sua popularidade. Não deu certo. A cada vez que o atacam e o condenam, e mesmo quando o prendem, mais aumenta a sua popularidade e mais cai a rejeição contra ele.

O Lula é inocente. Este é o problema. É um problema séria para os golpistas e para o Brasil. Vocês poderiam dizer: já que prenderam ele, por que vocês não escolhem outro candidato?

Ora, se nós, sabendo que Lula é inocente, retirássemos a candidatura dele, estaríamos fazendo o papel do carrasco. Permitiríamos que usassem as nossas mãos como as mãos do carrasco. É absolutamente impossível e antidemocrático, a gente sabendo que há uma perseguição política e que o Lula é inocente, que nós aceitássemos isto.

Eles criaram um clima de violência explícita no Brasil. Este clima está expresso na morte da vereadora Marielle Franco. A vereadora lutou pelas mulheres e pelas populações negras. Quem é preso e quem é assassinado no Brasil é sobretudo a juventude negra. E o Brasil é o país com maior população negra fora do continente africano.

Lula é o maior líder político brasileiro, é o homem que reduziu a desigualdade no Brasil. O presidente Lula encarna este processo de redução das desigualdades. Ele representa o antigolpe. Ele traduz a possibilidade de o Brasil se encontrar consigo mesmo. Um país como o Brasil não pode viver esta intolerância, esta absurda divisão e este ódio.

Lula tem condições de, a partir de uma eleição livre, ganhando ou não, ajudar o Brasil a se reencontrar. Ganhando, construirá pontes; perdendo, respeitará o resultado, jamais adotará uma atitude golpista, tentando mudar o resultado do jogo depois do placar ser anunciado, que foi o que fizeram comigo.

Lula é crucial neste processo. Por isto, não só prenderam o Lula como o colocaram num espaço exíguo. Eu tenho experiência de três anos de prisão durante a ditadura militar, e posso dizer que, passada a fase de interrogatório, quando sofremos torturas brutais, éramos levados para o presídio, e o máximo sofrimento a que nos submetiam era a solitária. É a pior punição, quando não há tortura física. Quem exerce a violência e usa a solitária como forma de tortura faz isto porque sabe que as pessoas precisam umas das outras. A gente precisa olhar uma face humana, a gente precisa conversar, a gente precisa tocar em alguém, a gente precisa do outro. Nós não somos só indivíduos e se fizeram de nós apenas indivíduos, nós seremos infelizes. Esta situação é o absoluto mal estar de civilização. Pois eles colocaram o Lula numa solitária. Lula é um homem forte, mas ele está sendo submetido a condições desumanas de prisão.

Nove governadores foram visitar Lula e foram barrados. Não puderam vê-lo. A preocupação de não deixar Lula falar é tamanha que eles não querem que ele converse com ninguém.

Lutar pela libertação de Lula é lutar pela defesa irrestrita da democracia no Brasil. Nós precisamos de democracia. O povo brasileiro só ganhou quando houve democracia e só perdeu quando ela foi reduzida.

Precisamos de democracia para voltar a reduzir a desigualdade.Precisamos de democracia para retormar o crescimento econômico. Precisamos de democracia para o nosso país saber fazer pactos e respeitá-los. Precisamos de democracia porque a diversidade em nosso país é grande e só assim conviveremos como uma Nação de todos e para todos.

A necessidadede democracia no Brasil, hoje, está à frente de qualquer outra questão. A democracia é condição para a gente solucionar os demais problemas. Precisamos de democracia, também, porque o Brasil é um país muito rico, há pouco tempo era a quinta economia do mundo, não é um país quebrado, como disseram ao dar o golpe. Um país que tem US$ 380 bilhões de reservas internacionais e um colchão de liquidez enorme no Banco Central não é um país quebrado. O nosso problema é o austericídio, a redução excessiva de investimentos e a tese de se pode sair da recessão impondo mais recessão. Isto é grave, e sem um pacto nós não iremos a lugar nenhum.

E deve ficar bem claro que sem eleições livres não haverá pacto.

Peço a todos vocês que participem da luta pela democracia e pela libertação de Lula, Se manifestem, assinem manifestos, escrevam.

Eu tenho certeza de que nós, ao resistirmos à prisão de Lula, ao nos recursarmos a retirar sua candidatura, estamos construindo o nosso futuro.

Um país só é respeitado se for capaz de contar a história da sua própria resistência, da sua capacidade de resistir e de lutar.

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