16 maio

Governo sem mulheres e negros não representa o País, diz presidenta Dilma

Entrevista a veículos estrangeiros. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Entrevista a veículos estrangeiros. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A presidenta Dilma Rousseff criticou nesta sexta-feira (13), em entrevista a jornalistas de veículos de comunicação estrangeiros, a ausência de mulheres e negros no Ministério anunciado pelo governo interino que tomou posse após seu afastamento temporário pelo Senado Federal. “Lamento que depois de muito tempo não tenha mulheres e negros no Ministério. A questão de gênero é democrática, fundamental num País em que, queiramos ou não, a maioria, mais de 50% são mulheres”, disse Dilma, acrescentando que as mulheres têm se provado competentes em todas as áreas.

A presidenta apontou um “problema de representatividade” na gestão interina, agravado pela falta de negros no primeiro escalão. “No Brasil, a desigualdade tem feições marcadas. Ela é negra, feminina, infantil e, obviamente, masculina. Mas negro, mulher [no governo] é algo fundamental se você quer de fato construir um pais inclusivo, não só do ponto de vista social, mas do ponto de vista cultural, dos direitos humanos”, acrescentou.

Pelo perfil dos auxiliares anunciados, Dilma avalia que a gestão provisória terá um perfil “liberal na economia e extremamente conservador na área de cultura e na área social”. “Os próximos dias vão confirmar ou rejeitar está hipótese”, disse.

Acompanhada de José Eduardo Cardozo — que continuará à frente de sua defesa após deixar a Advocacia Geral da União –, Dilma destacou que, passada a fase de aceitação do pedido, agora começa, de fato, o trabalho de defesa no processo de impeachment, e que essa defesa será feita no âmbito jurídico e no âmbito político, “para toda a sociedade brasileira”. “Pretendo sempre que for convidada, chamada, comparecer e de forma transparente, aberta, responder sobre as razões que levam a esse processo, às quais tenho uma profunda discordância, porque consideramos que não há base jurídica e, portanto, esse processo de impeachment é um golpe”, defendeu.

A presidenta ressaltou que, diferentemente do parlamentarismo, no presidencialismo o governante só pode ser afastado havendo “provas consistentes” de crime de responsabilidade, que não existem no atual processo.

O que está ocorrendo é [o uso de] um mecanismo político pelo qual aquelas pessoas que não foram eleitas, cujo programa de governo foi derrotado na eleição por 54 milhões de votos majoritários, tentam e querem usar da prerrogativa do impeachment fraudulento, portanto de um golpe, para executar um programa de governo que não foi aprovado nas urnas”, reiterou. “Eles não têm condições de chegar à Presidência da República pelo voto direto”.

Ela lembrou também que seu governo vem sofrendo, há 15 meses, “toda sorte de sabotagens”, como pedidos de recontagens de votos, questionamento da higidez das eleições e “pautas-bomba” no Congresso, para inviabilizar a agenda de continuidade das políticas sociais, da inclusão social e da retomada do crescimento econômico aprovada pelo voto popular.

Dilma também criticou os vazamentos seletivos e sistemáticos de investigações e processos judiciais sigilosos com o objetivo de desestabilizar sua gestão. “Tudo que se acusa contra nós é aceito, tudo que se acusa ou se pede investigação contra a oposição é recusado”, queixou-se.

Retorno e reforma política

Questionada sobre as chances de retorno ao cargo e de recomposição de uma base de apoio no Congresso, Dilma disse que lutará para mostrar ao País a situação política como ela de fato é. “O que tem hoje no Brasil é um governo provisório, um governo interino. E uma presidenta eleita por 54 milhões. Um um governo, portanto, interino e ilegítimo do ponto de vista de seus votos”, disse, acrescentando que também batalhará para recompor sua base de sustentação no futuro.

A presidenta, no entanto, defendeu a adoção de uma reforma política profunda, como forma de superação da crise e criticou a fragmentação do sistema partidário que dificulta a estabilidade do País.

Dilma lembrou das propostas apresentadas pelo governo após as manifestações de 2013, que previam a criação de uma assembleia constituinte exclusiva para a reforma política, dentre outras medidas

A presidenta ressaltou também que o País passou por aquele período de tensão nas ruas sem que houvesse qualquer ato de repressão pelo governo federal e, questionada, demonstrou preocupação caso cenário semelhante se repita agora. “Um governo ilegítimo precisa sempre de mecanismos ilegítimos pra se manter no poder”, sentenciou.

12 maio

Dilma é afastada e faz chamado: “Aos brasileiros que se opõem ao golpe, mantenham-se mobilizados”

A presidenta Dilma recebe o carinho das pessoas após sua saída do Palácio do Planalto. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
A presidenta Dilma recebe o carinho das pessoas após sua saída do Palácio do Planalto. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Já comunicada pelo Senado sobre seu afastamento, a presidenta Dilma Rousseff classificou, no final da manhã desta quinta-feira (12), o processo de impeachment como uma “grande injustiça” , em pronunciamento à imprensa, no Palácio do Planalto. Ao falar do impedimento, Dilma relacionou este acontecimento com outros passagens de sua vida, como quando teve de lutar contra o câncer e a ditadura, para dizer que a vida sempre reservou grandes desafios para ela e que continuará lutando “com todos os meios legais”.

“O destino sempre me reservou muitos desafios, muitos e grandes desafios. Alguns pareciam intransponíveis, mas eu consegui vencê-los”, afirmou a presidenta. “O que mais dói, neste momento, é a injustiça (…) é perceber que estou sendo vítima de uma farsa jurídica e política. Mas não esmoreço”, disse. “Aos brasileiros que se opõem ao golpe, independentemente de posições partidárias, faço um chamado: mantenham-se mobilizados, unidos e em paz. A luta pela democracia não tem data para terminar”.

Dilma afirmou que foi vítima de uma “intensa e incessante” sabotagem desde o início de seu segundo mandato, com o objetivo de criar um ambiente propício para o golpe, e classificou o impeachment como uma farsa jurídica. Ela disse ainda que não cometeu qualquer crime de responsabilidade. “Esta farsa jurídica deve-se ao fato de que eu, como presidenta, nunca aceitei e nem aceitarei chantagem de qualquer natureza”.

Ela admitiu ter cometido erros e disse que, no entanto, que eles não são motivos para a abertura do processo. “Posso ter cometido erros, mas não cometi crimes. Estou sendo julgada injustamente por ter feito tudo o que a lei me autorizava a fazer.Os atos que pratiquei foram legais, corretos, atos necessários, atos de governo. Atos idênticos foram executados pelos presidentes que me antecederam”.

Antes de deixar o Paácio, Dilma disse que o fato de o próximo governo não ter sido eleito é um potencial risco para fazer com que a crise aumente no País, e acrescentou que o golpe não é contra seu mandato, e sim contra as conquistas sociais dos 13 anos de seu governo e do ex-presidente Lula.

Nos braços do povo

Dilma deixou o Palácio do Planalto pela porta da frente para se encontrar manifestantes contrários ao seu afastamento. A presidenta agradeceu o “calor, a energia e o carinho” da multidão. “Eu tenho a honra de ter sido, no meu governo, fiadora da democracia”, afirmou.

A presidenta disse também que se sentia bem por ter “honrado os votos que as mulheres” lhe deram, mas lamentou a forma como foi afastada. “Eu enfrentei o desafio terrível e sombrio da Ditadura, mas o que mais dóis é o que estão fazendo agora”, comparou. “O que mais dóis é a injustiça. É ver que estou sendo vítima de uma farsa jurídica e política”, ressaltou.

Presente à manifestação de apoio à presidenta Dilma, o estudante de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB), Luis Felipe, disse estar decepcionado. “É um momento em que a democracia chora”, disse ele acompanhado por colegas universitários. Em outra manifestação de contrariedade, a artesã Amália Maria Queiroga disse lamentar o momento que o País atravessa: “Lutei muito durante a ditadura pela democracia agora sinto que fui roubada.” Opinião similar foi manifestada pela professora Vanilda Salgado, que disse ser este um momento para ser lamentado. “É uma página infeliz da nossa história”, afirmou.

12 maio

“A democracia é o lado certo. Jamais desistirei de lutar”, afirma Dilma após afastamento pelo Senado

A presidenta Dilma Rousseff garantiu, em pronunciamento à nação nesta quinta-feira (12), que continuará lutando por seu mandato e contra o que classifica como golpe contra a democracia, após a abertura do processo de impeachment pelo Senado Federal. Dilma reafirmou que não cometeu crime de responsabilidade e qualificou o processo em curso como uma “farsa política e jurídica”.

“O que está em jogo no processo de impeachment não é apenas o meu mandato, que pretendo defender e honrar até o último dia. O que está em jogo é o respeito às urnas, à vontade soberana do povo brasileiro e à Constituição”, disse Dilma, que destacou ter sido eleita por mais de 54 milhões de brasileiros e brasileiras.

“A história é feita de luta e sempre vale a pena lutar pela democracia. A democracia é o lado certo da história. Jamais desistirei de lutar”.

Afastada temporariamente do cargo, Dilma lembrou que ainda há uma árdua batalha a ser enfrentada nos próximos 180 dias, e convocou a população a defender o restabelecimento da ordem democrática. “Aos brasileiros que se opõem ao golpe, independentemente de posições partidárias, faço um convite: mantenham-se mobilizados, unidos e em paz. A luta pela democracia não tem data para terminar: é luta permanente, que exige de nós dedicação constante”, disse.

No pronunciamento, Dilma voltou a alertar para o risco de retrocesso nos avanços sociais conquistados nos últimos 13 anos, em especial para as populações mais pobres e de classe média, citando especificamente a política de valorização do salário mínimo, a inclusão dos jovens no ensino superior, a ampliação do atendimento de saúde e a conquista da casa própria.

A presidenta advertiu que um governo ilegítimo, ungido por uma “eleição indireta” travestida de impeachment, será um “entrave às soluções que o País necessita” e “a grande razão para a continuidade da crise”. “O maior risco para o País nesse momento é ser dirigido por um governo sem voto, um governo que não foi eleito pela manifestação direta da população, não terá a legitimidade para propor e implementar soluções para os desafios que o País enfrenta”, afirmou

Sabotagem e injustiça

No depoimento ao País, Dilma reiterou que seu segundo governo foi alvo de “intensa e incessante sabotagem” por forças políticas que não aceitaram a derrota nas urnas em 2014. “Desde que fui eleita, parte da oposição, inconformada, pediu a recontagem dos votos, tentou anular as eleições e depois passou a conspirar abertamente pelo impeachment. Os derrotados mergulharam o País em um estado permanente de instabilidade política, impedindo a recuperação da economia com um único objetivo: de tomar a força o que não conquistaram nas urnas”, criticou.

A presidenta reforçou que não há razão para impeachment e que os questionamentos a decisões de política orçamentária são improcedentes e meros pretextos para tirar seu mandato. “Acusam-me de ter editado seis decretos de crédito suplementar e, ao fazê-lo, ter cometido crime contra a Lei Orçamentária. É falso, pois os decretos seguiram autorizações previstas na lei”, disse Dilma, negando também que tenham existido irregularidades na condução do Plano Safra.

“Não tenho contas no exterior, nunca recebi propinas, jamais compactuei com a corrupção”, acrescentou Dilma, que disse ser atacada por nunca ter aceitado chantagem. “Este é um processo frágil, juridicamente inconsistente, um processo injusto, desencadeado contra uma pessoa honesta e inocente. É a maior das brutalidades que pode ser cometida contra qualquer ser humano: puni-lo por um crime que não cometeu”.

Ao lembrar do sofrimento da tortura vivida na ditadura militar e do câncer que teve de superar em 2010, Dilma lamentou estar sendo novamente vítima de uma injustiça. “Mas não esmoreço”, reagiu. “Olho para trás e vejo tudo o que fizemos; olho para a frente e vejo tudo o que ainda precisamos e podemos fazer. O mais importante é que posso olhar para mim mesma e ver a face de alguém que, mesmo marcada pelo tempo, tem forças para defender suas ideias e seus direitos”, adicionou.

Dilma, por fim, recordou seu histórico de luta pela democracia no País e demonstrou confiança na capacidade de resistência do povo brasileiro, demonstrada nos últimos meses, em manifestações pelo País “em defesa de mais direitos e mais avanços”. “É por isso que tenho certeza de que a população dirá ‘não’ ao golpe”, afiançou.


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Este não será o País do ódio